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terça-feira, 27 de setembro de 2011

E.coli

O que ensina a epidemia de E.coli
Após a epidemia de 'Escherichia coli’ entero-hemorrágica que aconteceu este ano e matou 53 pessoas, a Alemanha quer diminuir o tempo de transmissão de informações sobre epidemias de doenças contagiosas entre as autoridades federais de 18 para apenas três dias. Contudo, a comunidade médica pede que sejam tomadas mais providências – desde diagnósticos mais abrangentes ao financiamento para a formação de médicos especialistas.
A epidemia iniciada em maio deste ano infectou mais de 3.500 pessoas na Alemanha. Destas, 855 desenvolveram uma complicação rara e grave denominada síndrome hemolítico-urêmica. Cientistas, médicos e políticos se reuniram no encontro da Sociedade Alemã de Nefrologia, que aconteceu entre os dias 9 e 10 de setembro em Berlim. Na ocasião, eles foram informados de que a duração da epidemia e o tempo decorrido até que sua origem fosse descoberta é considerado favorável em comparação com epidemias da E.coli ocorridas anteriormente em outros países.
“Nós não teríamos marcado um encontro se tivéssemos pensado que tudo correu bem”, afirma Reinhard Brunkhorst, presidente da sociedade. A epidemia expôs deficiências no sistema de notificação de doenças do país, incluindo o potencial para atraso na notificação que Brunkhorst descreveu como “não justificável”.
Pela legislação alemã, os médicos devem notificar em 24 horas os órgãos de saúde locais sobre doenças cuja comunicação é obrigatória. A agência local tem três dias úteis na semana seguinte para relatar o ocorrido às autoridades estaduais que, por sua vez, têm uma semana para informar às autoridades nacionais.
Durante a última epidemia, os relatos de novos casos aconteciam diariamente e este precedente induziu à mudança nas políticas. O ministro da Saúde, Daniel Bahr, afirmou no encontro que, em breve, os órgãos competentes deverão notificar os casos por lei em um dia útil.
Diagnóstico proativo Gerard Krause, epidemiologista do Instituto Robert Koch, órgão federal responsável pelo monitoramento de doenças, recebeu bem a reforma. Contudo, ele afirma que mais empenho será necessário para lidar com outros problemas.
“A rede só pode funcionar se forem colocadas nela informações precisas antes de tudo”, afirma. De acordo com Krause, o sistema do serviço de saúde alemão pressiona os médicos a realizar apenas um número mínimo de exames necessários a fim de tomar as decisões de tratamento – para que os padrões que possam identificar uma epidemia não sejam reconhecidos rapidamente. Krause gostaria de ver estabelecida uma rede de monitoramento moderna. “Se realizássemos diagnósticos mais abrangentes em uma amostra sistemática de, digamos, a cada décima notificação, teríamos capacidade de detectar melhor novas cepas”, afirma.
Bahr admitiu que comunicação deficiente e demarcação de responsabilidades inadequada entre os departamentos estaduais e federais causaram a confusão durante a epidemia. Contudo, ele afirma que seria difícil convencer os diversos níveis da administração da saúde a colaborar em um único sistema digital de relatórios, outra medida exigida pelos participantes do encontro.
A comunicação, porém, era notavelmente eficaz em outros estabelecimentos. A equipe hospitalar reunia recursos e experiência e as ações não ortodoxas dos médicos se estenderam a estratégias de experimentação de tratamento da síndrome hemolítico-urêmica nunca antes utilizadas. Já existem evidências de que a técnica de imunoadsorção 1 funcionou para aliviar os sintomas neurológicos severos associados à síndrome. Além disso, os médicos continuam esperando para ver a idéia que tiveram de tratar os pacientes com Eculizumab – um anticorpo monoclonal normalmente utilizado para tratar uma doença do sistema imunológico – funcionou no contexto de pesquisa médica. Brunkhorst afirma que a iniciativa dos médicos mostra a importância do desenvolvimento profissional contínuo a fim de auxiliar os especialistas a reagir em situações decisivas.
Os pesquisadores continuarão a analisar a epidemia durante meses. Jan Kielstein, nefrologista da Escola Superior de Medicina de Hannover, ajudou a definir o registro dos pacientes uma semana após o reconhecimento da epidemia. Agora, esse registro contém informações de 418 pessoas com a síndrome hemolítico-urêmica – uma fonte de dados preciosa. Kielstein conta que foi difícil escolher que tipo de informações pedir e a quantidade, e que a observação do passado trouxe alguns arrependimentos. Por exemplo, o questionário não pedia a contagem de glóbulos brancos e isso era frustrante ao considerar os dados preliminares apresentados na conferência, os quais sugeriam que os pacientes com sintomas neurológicos graves apresentam grande número de glóbulos brancos. Ele acrescenta que a decisão de ter campos abertos de entrada de dados, em vez de espaços a serem preenchidos com um sinal, ofereceu a eles informações que não teriam pensado em perguntar, ainda que elas agora constituam uma análise difícil.
Brunkhorst e Kielstein esperam que documentar a experiência com o registro ajude a reagir melhor a futuras epidemias. “Nós improvisamos”, afirmou Brunkhorst. “Isso funcionou, mas teria funcionado ainda melhor em um sistema de referência pré-definido”, afirma. Kielstein concorda, acrescentando que o entusiasmo individual permanece vital em situações críticas. “Caso se aja de forma muito normatizada, corre-se o risco de perder a energia e a dinâmica”.
Fonte: The New York Times 

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